Os imigrantes africanos voltaram este Verão a ser o alvo de «tiro ao alvo» nas ruas de Nápoles. Os autores são vários jovens, quase adolescentes, que andam de bicicleta a vaguear à noite pelas ruas da cidade. Uma moda macabra.

A cidade está vazia durante as noites de Agosto. Com a maioria dos napolitanos de férias e os poucos turistas que de noite passeiam pelas ruas do centro, são ainda mais os imigrantes, especialmente os sub-saarianos que pululam por ali. De repente, um dos adolescentes saca de uma arma e dispara. É o jogo do tiro contra o imigrante, criminoso e perigoso que causou várias vítimas nas últimas semanas, noticia o jornal El Mundo.

Este é o caso de Henry Kwasu, nigeriano, baleado na perna enquanto caminhava pela rua Forcella, no centro histórico da cidade. Está a recuperar-se no hospital. É também o caso de um jovem do Senegal, que o jornal Repubblica conta como escapou da morte há uma semana atrás, quando foi baleado nas costas, perto do Duomo.

«É um milagre não estar no hospital», diz ele. «Eu estava a caminhar pela rua quando ouvi gritos, mas não me virei. Não sei se alguém queria avisar-me porque tinha visto uma pistola apontada para mim, ou se um dos assaltantes queria que me virasse para me tornar um alvo mais fácil», contou. Então ouviu um tiro e viu dois homens jovens com uma arma na mão apontada para ele. Desatou a correr. «Deus quis salvar-me. Acredito apenas nele», afirma.

Estes não são casos isolados. Outros imigrantes têm sofrido nas últimas semanas com ações deste género, mas não as denunciam porque não têm documentos. «Muitas crianças de cor, vítimas desses episódios, têm medo de as denunciar», diz Gianluca Petruzzo, presidente da associação contra o racismo «3 de Fevereiro».

"Nápoles não pode fingir que isto não está a acontecer», reclama Petruzzo. «Se não somos livres para andar na rua, se a nossa vida depende do capricho de um criminoso, o problema é de todos, não só de quem apanha com o tiro», acrescenta. Petruzzo garante que nos últimos dias têm procurado a ajuda de outras associações e sindicatos, mas não recebeu uma resposta. «Agora pediremos ajuda ao cardeal Sepe», arcebispo de Nápoles.

Alertado por relatórios da imprensa local, o presidente da Câmara de Nápoles, Luigi de Magistris, disse que a cidade «não é racista ou preconceituoso, mas aconchegante e a favor da fusão entre os povos, culturas e religiões».

O clima assemelha-se ao de 2005, quando Gennaro Caldore esfaqueou até à morte na rua Ibrahim Diop, do Senegal. Quando a polícia o prendeu vários dias mais tarde, enquanto se bronzeava na praia, Caldore, 19 anos, disse que o africano lhe tinha feito «mau olhado».

Três anos depois, o assassínio de seis jovens africanos às mãos de um clã da Camorra, a máfia napolitana, despertou a indignação da comunidade estrangeira em Itália. Quando foram presos, os assassinos alegaram que era um «aviso» para os« camelos coloridos» que «trabalhavam na zona». Não importava que os seis africanos que mataram trabalhassem na apanha de tomate, sem qualquer ligação com o negócio da droga.

Fonte: DD