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    KARMA E REENCARNAÇÃO VERSUS SALVAÇÃO E DANAÇÃO

    por Jaya Hari Das

    O objetivo deste artigo é analisar a lei do karma e da reencarnação e a ideia cristã de salvação e danação, considerando seus aspectos em relação à existência humana como sendo apriorísticos ou não, sensatos ou não, válidos ou não, racionais ou não. Não se pretende encerrar esse incontestável antagonismo do pensamento oriental e ocidental em algumas linhas, embora bem elaboradas. Pretende-se, sim, demonstrar a plausibilidade de uma diante do absurdo da outra e lançar questionamentos e dúvidas sobre os homens aparentemente sensatos e racionais que se deixaram cativar pela fé cristã e a validade de se adorar um Ser Supremo, aparentemente leviano.



    O modo como raciocinamos nos faz crer que há uma cadeia de causas e efeitos que perpassa todos os eventos existenciais e dá sentido a tudo o que observamos no mundo. Tendemos a buscar explicações para tudo que nos acontece, principalmente quando se trata de coisas ruins – queremos saber a causa, o porquê de tudo aquilo – e, quando não encontramos, só nos resta aceitar os fatos e seguir vivendo, ou justificar tudo como sendo obra de uma vontade superior sobre a qual nada sabemos, um mistério insondável. Assim, não sabemos por que alguns de nós nascem sadios e outros, doentes ou deficientes; por que alguns têm uma vida relativamente boa e outros, uma vida deplorável; por que alguns de nós têm vida longa, enquanto outros morrem cedo demais; e assim por diante. A nossa razão não dá resposta para tudo e a nossa Ciência ainda não foi capaz de perscrutar a própria “razão do Universo”. Esse lapso, essa falha, esse hiato em que habita o imperscrutável é preenchido, muitas vezes, por crenças religiosas que, acatadas ao longo de séculos por milhões de pessoas, ganham força de “verdades científicas insofismáveis”. Daí, por que não perguntar: seriam o karma e a reencarnação dois exemplos dessas tais “verdades”, ou seriam realmente “verdades prováveis”?


    Os termos karma e reencarnação são bastante conhecidos entre os povos orientais, que parecem compreender muito bem como se dá tanto o processo cármico quanto o reencarnatório na existência. Porém, entre os ocidentais, tanto esses termos parecem mal compreendidos quanto mal aceitos, devido ao conflito que causam aos preceitos e crenças cristãs, pois qual seria a necessidade e todo o sacrifício do “filho de Deus” pra salvar o mundo, se cada ser humano realmente passar por um processo de “melhoramento existencial”, pagando cada um seu próprio erro (ou pecado) e resgatando assim seu direito ao próprio bem? Será então que chegamos aqui a um impasse, a um dilema que se resolve apenas pelo fato de sermos de lá ou de cá, mas que não dá razão a nenhum dos lados? Veremos!


    Se, como dissemos, o karma e a reencarnação são conflitantes com o sacrifício do Cristo, devemos considerar então qual dos casos pode ser uma verdade plausível e apriorística, ou seja, que participa das causas e efeitos do mundo, da existência, desde sempre, e qual deles seria uma verdade aceitável, porém como evento a posteriori, uma espécie de adequação do próprio modus operandi da existência humana, como se ela, de vez em quando, precisasse de reparos e adequações. Além disso, parece louvável também considerarmos qual dos casos pode se configurar mais próprio a uma vontade ou lei superior que, como se pensa, não apenas fez surgir este mundo, mas também o tem mantido até aqui. Sabemos que qualquer argumento ou tese necessita de uma base, de um fundamento em que se sustentar. Mesmo os grandes filósofos, como Platão e Descartes, não foram capazes de abdicar da ideia, às vezes incômoda, dessa vontade, dessa lei ou desse ser supremo, para a partir daí, tecer seu método ou filosofia, sua teoria sobre o mundo e existência humana. Aqui, também nós somos forçados a aceitar esse fundamento, sabendo bem que, se essa vontade, lei ou ser não passar de um ledo engano, todos os nossos argumentos também cairão por terra. Sigamos em frente, a despeito do risco!


    O conceito de karma é o de uma lei inexorável de causa e efeito, a qual exige que um ato, uma ação qualquer perpetrada por um indivíduo, tenha nele seu surgimento e sua consumação. Assim, quando um ser humano, de forma consciente ou inconsciente, age de qualquer forma no mundo, ele automaticamente gera karma, o que significa dizer que sofrerá as conseqüências boas ou más de tudo o que fez, faz ou fará. Vemos que aqui também não podemos abdicar da ideia do bem e do mal, uma vez que tudo gerado, isto é, toda causa trará um efeito bom ou mau, segundo a percepção do indivíduo, do agente. Bem, dando continuidade ao nosso raciocínio, o que temos a partir dessa argumentação é uma cadeia de causas e efeitos que dizem respeito a cada indivíduo. E quando essa cadeia cessa, se é que ela tem um fim? Seria na sua morte? Ou a morte, como dizem alguns, não é o fim? É aí que entra a reencarnação, como uma lei complementar e inseparável da lei do karma.


    O conceito de reencarnação para os orientais é uma cadeia infindável (ou quase) de nascimentos e mortes de uma mesma unidade de vida, denominada alma, que receberia em cada novo nascimento um corpo físico, para dar continuidade a uma existência, digamos, ininterrupta, pois, sendo assim, a morte seria apenas mais um evento cármico, um fato simples e regular na totalidade daquela existência individual, tal qual o seu nascimento. O fato de reencarnar não dá ao ser humano a certeza de que ele será “a mesma pessoa”, compreendendo aqui “pessoa” como uma “personalidade” com atributos fixos e identificáveis. Por exemplo: quando “João” nasce, isso significa que uma unidade de vida (alma) recebeu um corpo físico masculino e, ao longo daquela encarnação identifica-se com esse corpo agregando a ele certas características, tendências e gostos particulares; depois que “João” morre, a alma despe-se daquele personagem e renasce, depois de algum tempo, não necessariamente com um corpo masculino com o nome “João”, ela poderá receber um corpo feminino e passar a chamar-se “Maria”, passando a agregar a esse corpo outras características, tendências e gostos. Dificilmente, “Maria” lembrará que um dia foi “João”, porém essa possibilidade não está descartada, entretanto, o mais provável é que tenha a nítida impressão de que está vivendo (assumindo uma personalidade) “pela primeira vez”.


    Ao que parece, resta-nos agora perguntar qual o sentido de tudo isso e que vantagem tem o nosso “João” em reencarnar milhões de vezes, se ele não tem nem noção de quem fora no passado e do que fizera. Ora, não será demasiado difícil perceber que o sentido de tudo isso está em si mesmo, ou seja, essa espécie de “reciclagem natural” permite à existência uma continuidade sem desgastes, uma autopreservação benfazeja, uma vez que ela é composta de seres vivos e assim não teria necessidade de produzir e desperdiçar infinitamente novas unidades de vida (almas). Já “a vantagem de João” seria nenhuma, considerando-se que “João” nada mais é do que o nome ou identidade temporária de uma unidade de vida eterna que, poderíamos assim dizer, se empresta a vários personagens, encena vários papéis, indefinidamente.


    Consideremos agora o outro caso proposto – o sacrifício de Jesus Cristo como salvação da humanidade, ou seja de todos os “Joões” e “Marias”. Bem, para a religião cristã, base de todo o pensamento ocidental, a existência é a “Criação de Deus” e tem seus dias contados para acabar, momento em que todas as almas serão chamadas (aí, sim!) a prestar contas dos seus atos, bons e maus. Segundo a crença cristã, aquelas almas que apresentarem um coeficiente positivo e, além disso e acima de tudo, tiverem aceito em seu coração o Cristo como seu salvador, serão poupadas e levadas para um lugar, onde viverão com Deus por toda a eternidade; já aquelas em que o resultado de todos os atos for negativo serão atiradas na fornalha do inferno, onde arderão também por toda a eternidade. É inevitável concluir a partir daí que a existência como “Criação de Deus” foi desde sempre projetada para desperdiçar unidades de vida (almas) e consequentemente se autodestruir, uma vez que depende dessas unidades para “ser” o que é. Perguntemos também aqui qual o sentido de tudo isso e qual a vantagem de “João” ou de “Maria” nesse caso.


    Não parece difícil perceber sem muito esforço que esse segundo caso analisado não passa de uma “estória sem sentido”, talvez “uma piada de mau-gosto” (como alguém já ousou dizer), com extremo prejuízo para bilhões e bilhões de unidades de vida que viveram ao longo de eras sob vicissitudes e dores as mais variadas e ainda queimarão no inferno eternidade afora, enquanto outras, bem-aventuradas, gozarão dessa eternidade na presença do Bem Supremo. Poder-se-ia perguntar aqui como esse “Bem Supremo” é capaz de tanto mal, até mesmo do “eterno mal” de condenar essas almas à perdição eterna, sob condições infernais. Ao que parece, estamos diante de um caso insofismável de “leviandade” – um Deus caprichoso, leviano, volúvel e inconsequente cria um mundo, inventa almas para viver nele e dar-lhe sentido, somente para destruí-lo quando bem entender e dar sua graça a quem desejar.

    Fica difícil compreender como é que a racionalidade ocidental pôde sustentar e aceitar até aqui tanto absurdo. Como homens aparentemente sensatos e racionais puderam corroborar e até colaborar com a propagação dessa crença inescrupulosa e irracional? Para que tanta ciência, tantos avanços tecnológicos, tantos sacrifícios físicos, éticos e morais, se este mundo é uma bomba-relógio e nem mesmo sabemos se seremos os tais “escolhidos de Deus”? Quanto bem e quanto mal são necessários para que nos salvemos ou sejamos condenados? Qual critério é empregado em favor dos miseráveis que não tiveram oportunidade de uma vida digna para fazer o bem que lhes cabe, assim como os desvalidos sociais, os deficientes físicos e os que morreram precocemente, sem terem tido chance nem mesmo de sequer ouvir falar de Jesus, quem dirá crer em “nosso Senhor Jesus Cristo”? Por que louvar, honrar ou adorar um Criador que nos fez para seu bel-prazer, para sua vaidade das vaidades?


    Enfim, embora estejamos tateando às escuras nesse universo de possibilidades, de incertezas e vazios, postas assim, sob nossa análise, essas duas propostas de verdade para a existência, parece infinitamente mais sensato e racional admitir que a lei do karma e da reencarnação de longe é mais possível de ser uma “verdade apriorística” do que toda essa arrepiante trama de terror da fé cristã – uma vez que, considerada nos termos que tratamos aqui, a lei do karma e da reencarnação prescinde de adequações, por ter sido desde sempre bem arquitetada e planejada, para subsistir ao dinamismo da vida humana, sem necessidade de sacrifícios humanos ou divinos, sem precisar perturbar o sono dos mortos, somente para que um Deus leviano e caprichoso atire os que bem entender à fornalha eterna e leve para seu convívio sublime os que bem lhe convierem.


    Artigo da autoria de Jaya Hari Das.
    Em Obvious

  2. #2
    Avatar de newpine
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    Não posso colocar apenas o like ...

    Já não pego num livro há muito tempo, mas seria uma idiotice se não lesse o conteúdo do texto no teu tópico , e passasse ao largo apenas com um like.

    Foi-me difícil " entrar " na leitura até ficar absorvido pelas palavras , mas li e acompanhei a teoria do texto .

    Às vezes é necessário " provar " que gostamos do que lemos , e o like fica muito sozinho no modo de gostar .

    Quanto ao tema , temo dizer francamente que não é literatura para mim , mas apreciei.

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