Holanda-Argentina, 0-0, 2-4 gp

Confimou-se a tradição e a Argentina continua sem ser eliminada em meias-finais de Campeonatos do Mundo. À quinta tentativa, os companheiros de Messi garantiram a presença na quinta decisão – a terceira com a Alemanha, o que faz da final de domingo a mais repetida na História dos Mundiais. Foi a primeira vez em 84 anos que uma meia-final acabou sem golos. Fruto de um jogo calculado ao milímetro pelos treinadores, que deixa poucas saudades a quem o presenciou. O desempate por penaltis acaba por premiar quem mais tentou evitá-los. Não muito, é verdade.
Talvez as expectativas fossem irrealisticamente altas, depois do corretivo histórico aplicado pela Alemanha em Belo Horizonte. Mas quem esperava mais hora e meia para a História, com maiúscula, teve de contentar-se com meros 5 minutos para a pequena história deste Mundial e 115 de implacável acerto táctico, quase exclusivamente dedicados a reduzir o erro à expressão mínima – e o bocejo à amplitude máxima.
O perfil das duas equipas a partir do momento em que a prova entrou nos jogos a eliminar – vitórias tangenciais, prolongamentos e nula vocação para oferecer espaços - já sugeria qualquer coisa do género. A tendência para a minúcia, de Van Gaal, e para o minimalismo, de Sabella, fez o resto: um jogo de equilíbrios e espaços curtos, com marcações intensas e 22 jogadores de calculadora sempre ligada.
Em 3x1x4x2, com De Jong a fazer a ligação com o trio de defesas, a Holanda preocupava-se em jogar com as linhas próximas e em fechar espaços na zona central, obrigando a Argentina a jogar pelas laterais, o que tornava a ausência forçada de Di María ainda mais notada.
Do outro lado, se Biglia dava mais dinamismo ao meio-campo do que Gago – permitindo sublinhar ainda mais a excelência do Mundial de Mascherano – era a ação entre linhas de Enzo Perez, titular pela primeira vez, a criar os primeiros focos de instabilidade na defesa holandesa. Messi, um pouco mais subido do que o habitual, esticava o habitual 4x2x3x1 para um 4x4x2 fluido, jogando praticamente na mesma linha de Higuaín. Quase nem vale a pena acrescentar que raramente recebeu a bola sem dois holandeses a marcá-lo em cima.
Todos estes pormenores e encaixes, já o perceberam, disfarçam uma primeira parte de emoção a rondar o zero, se excetuarmos o duelo de cânticos provocatórios entre brasileiros e argentinos, num Itaquerão fustigado por chuva intensa e com os holandeses em clara minoria. O primeiro remate pertenceu a Sneijder (demorou 13 minutos e saiu bem ao lado), a primeira oportunidade a Messi (livre direto em força, que Cillesen encaixou bem). No resto do tempo, a Holanda, encolhida, convidou a Argentina a abrir espaços, para poder explorar as bolas longas para Robben e Van Persie. Como o convite foi rejeitado, o jogo manteve-se no congelador, à espera da primeira brecha.
Em cima do intervalo, uma sequência de faltas de Bruno Martins Indi valeu-lhe o amarelo e tornou evidente o risco de expulsão. Assim, ao intervalo, Van Gaal fez entrar Landzaat, mexendo em três posições na defesa: Landzaat foi para direita, Kuyt passou para lateral-esquerdo e Blind recuou para central. Resultados práticos? Nenhuns, tudo prosseguiu tão arrumado e lógico como um jogo de xadrez, embora ligeiramente menos emocionante.
As raras tentativas argentinas que furavam o bloqueio laranja esbarravam na atuação imperial de Vlaar, no comando da defesa. E a situação não mudou quando Sabella, à entrada dos dez minutos finais, trocou os desgastados Enzo e Higuaín por Aguero e Palacio. Já quando a laranja saía dos seus cuidados para tentar o ataque, a incapacidade para ligar Sneijder e Van Persie era gritante – à exceção de uma meia bicicleta desesperada, para fora (73 min) o ponta de lança do Man. United passou todos os 90 minutos à procura de uma aberta, e de um passe luminoso que nunca chegou.
Num Mundial tão fértil em golpes de teatro, este jogo tão programado poderia ter tido o seu, aos 90 minutos, quando Robben, pela primeira vez em todo o jogo, teve espaço para receber e rodar na área. Porém, o seu segundo toque adiantou demasiado a bola, permitindo a Mascherano, novamente soberbo, um daqueles carrinhos que valem golo – e que, neste caso, ajudam a definir finais de Campeonatos do Mundo.
Se chegou até aqui merece o prémio de ser poupado à descrição minuciosa das nuances do prolongamento. Basta dizer que a Holanda teve um pouco mais de bola, que Van Gaal trocou o desgastado Van Persie pelo musculado Huntelaar – esgotando assim a possibilidade de repetir a substituição de guarda-redes nos penaltis - e que a perspectiva de um golo continuou a parecer uma hipótese tão remota como a de encontrar um brasileiro feliz nesta quarta-feira.
Sentindo as energias da sua equipa esvaírem-se, os adeptos argentinos começaram a chamar em coro por Messi para o seu génio resolver, como o tinha feito contra a Suíça. Isso esteve quase a acontecer aos 115 minutos, quando uma das raras centelhas do esquerdino deixou Palacio frente a frente com Cillesen – apenas para este recolher facilmente o medíocre arremedo de chapéu gaúcho.
Foi o último fogacho capaz de evitar a primeira meia-final sem golos em toda a história dos Mundiais: a partir daqui, sem a possibilidade de jogar a cartada Krul, a Holanda retomou os velhos hábitos. Vlaar e Sneijder permitiram as defesas de Romero, enquanto Messi dava o exemplo contrário, acertando o primeiro de quatro penaltis competentes dos argentinos.
A Holanda, que durante grande parte do tempo tentou fazer aquilo que a Costa Rica lhe tinha feito nos quartos de final, acabou por pagar o preço da evidente avareza do seu modelo versão 2014. E enquanto a festa argentina acentuava a depressão brasileira pós-Mineirazo, os espectadores iam deixando as bancadas do Itaquerão com a certeza de que, mesmo nos jogos mais insossos, o futebol arranja quase sempre forma de fazer sentido.

Fonte: Mais Futebol