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Diagnóstico precoce é o calcanhar de Aquiles da resposta ao cancro em Portugal. Agora alguns médicos temem que esteja a haver retrocessos
A detecção precoce do cancro continua a ser o calcanhar de Aquiles da oncologia em Portugal. Se a análise é unânime e tem havido melhorias, alguns médicos alertam que nos últimos anos houve retrocessos. Há mais doentes a aparecer com tumores que podiam ser detectados mais cedo. Nódulos na mama com mais de três centímetros quando são sentidos a partir de 1,5 e sangue nas fezes durante meses são situações que se tornaram mais comuns.

Jorge Espírito Santo, responsável pela oncologia do Centro Hospitalar Barreiro Montijo, ressalva que não tem estatísticas, mas que é esse o sentimento de quem está no terreno. “Os doentes são tratados na mesma, mas têm pior prognóstico”, alerta. Isabel Cerejo, radiologista no Hospital de Vila Franca de Xira, tem a mesma percepção e acrescenta que há cada vez mais tumores apanhados nas urgências.

“Temos mais casos de cancro do cólon em oclusão – quando o tumor cresce e provoca obstrução grave do intestino –, tumores da bexiga em que o doente nunca fez uma ecografia apesar de perder sangue na urina e cancro da mama já com gânglios metastizados na axila”, exemplifica, defendendo que a falta de investimento em cuidados primários fortes que detectem estes casos acaba por sair mais caro.
Nuno Miranda, director do Programa Nacional de Doenças Oncológicas, diz que não existem estatísticas nacionais que confirmem esta percepção, mas contrapõe que não tem aumentado o número de doentes tão avançados que já não podem ser operados. Ainda assim, o responsável admite que ainda há muito a melhorar na detecção precoce no SNS e também junto da população, que por vezes ainda ignora por demasiado tempo os sinais de alerta.

Nos anos 90 iniciaram-se programas de rastreio de base populacional (em que a população é convocada) para a mama e colo do útero mas a cobertura não é ainda total. E no cancro colorrectal o rastreio só arrancou em 2009 e não existe ainda no Norte e em Lisboa e Vale do Tejo.

Sem esta chamada periódica, os doentes podem ser aconselhados pelos médicos ou fazer exames por sua iniciativa, mas isso exige informação e contacto regular com os serviços de saúde. Para quem está no terreno, é um pouco tudo isto que continua a falhar e os últimos anos de crise terão levado a um agravamento. “Temos pessoas que evitam ir ao médico por não ter ou para não gastar dinheiro ou que, perante as preocupações do dia-a-dia, desvalorizam os sintomas”, diz Espírito Santo. Dificuldades no acesso ao médico de família ou a exames comparticipados, como colonoscopias, são os motivos sistémicos apontados a que se somam problemas culturais, do medo à desinformação. E não é preciso ir ao Interior profundo para a encontrar. Cerejo recorda uma doente idosa, da periferia de Lisboa, que apareceu com um cancro muito avançado. Quando lhe perguntou há quanto tempo notara a mama diferente, respondeu que “tinha andado a gastar rios de dinheiro com um senhor que trata estas coisas com umas plantas”.

António Pimenta Marinho, médico de família em Braga, não sente um aumento nas queixas tardias mas sim grandes diferenças na atitude dos doentes. “Há pessoas que são superpreocupadas e estão sempre disponíveis para todos os rastreios que são feitos, por exemplo em feiras de saúde, e deviam ter mais cuidado, e outros que vão deixando andar”, diz, recordando um doente que nem foi buscar os resultados do exame e só depois de ter perdido vários quilos tornou a aparecer.

Investir em mais rastreios de base populacional e cuidados primários são as soluções consensuais, nos últimos anos em suspenso. Miranda concorda que esse é o caminho, mas explica que as “dificuldades logísticas” existem todos os países, em particular nos centros urbanos. Ana Miranda, coordenadora do Registo Oncológico do Sul, defende que isso justifica mais investimento e estima que a generalização e a adesão total permitiria reduzir a mortalidade do cancro do cólon em 60%, na mama em 40% e no útero em 80%.

Manuel Sobrinho Simões, investigador em oncologia e director do IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto), não tem dúvidas que esta é a melhor estratégia para reduzir o impacto do cancro enquanto se procuram formas de diagnosticar mais cedo tumores que dão menos sintomas iniciais. Mas assinala que, parecendo fácil, é uma mudança cultural radical. “A grande aspiração do português é resolver catástrofes e não dar uma resposta consistente”, ironiza. Mais organização é a prescrição do médico, desde a qualidade com que os exames são feitos ao combate a esperas de meses com suspeitas de malignidade até à confirmação.

Mas sobretudo mais informação, a começar com a geração que mais pode fazer a diferença: os jovens. Na semana passada, o IPATIMUP organizou uma exposição na Gulbenkian dirigida a escolas. Mais que “despejar” informação, o investigador diz que é preciso acompanhar a digestão da mesma, para que se traduza em melhores decisões, incluindo no despiste. Por isso, a 30 de Abril vão fazer reunir de novo as escolas e os alunos vão competir pelo melhor poster sobre o que aprenderam.

No auditório, Sobrinho Simões espicaça as turmas com perguntas como porque é que Angelina Jolie teve de tirar as mamas ou sobre o quanto estamos rodeados de estrogénios, o que aumenta o risco. “Não é só quem toma a pílula, as águas residuais ficam cheias deles, ao ponto de os peixes da barragem de Crestuma mudarem de sexo.” O teaser prende a audiência mas só quando o cientista avisa que os prémios para os melhores serão três iPads é que os olhos brilham.



Tudo o que precisa saber

Sinais de alerta que não pode ignorar

- Massa ou nódulo em qualquer parte do corpo que não diminui

- Ferida que não cicatriza

- Sinal ou lesão na pele que surge de novo ou que muda de características

- Perda de sangue anormal, nas fezes ou na urina

- Tosse ou rouquidão persistente

- Indigestão, ardor ou desconforto digestivo persistente

- Alteração dos hábitos urinários ou intestinais sem causa aparente

- Perda de peso sem causa aparente


Rastreio
A partir dos 25 anos ou três anos depois da primeira relação sexual, as mulheres devem fazer pelo menos dois anos seguidos o teste de Papanicolau. Este exame procura anomalias nas células do colo do útero, que permitem detectar lesões pré-cancerosas ou cancros em fase inicial. Se dois exames seguidos derem negativo devem passar a fazer este exame de três em três anos. A partir dos 40 anos há indicação para mamografia de dois em dois anos. Já a partir dos 49 anos, é indicado fazer de dois em dois anos a pesquisa de sangue oculto nas fezes e colonoscopia em caso positivo. É também aconselhável fazer uma colonoscopia esquerda de cinco em cinco anos. Mais de nove em cada dez cancros colorrectais desenvolvem-se a partir de pólipos benignos, que podem ser tratados.

Cuidados no dia-a-dia
O autoexame mamário permite despistar nódulos precocemente, o que significa um melhor prognóstico. A partir dos 20 anos as mulheres devem fazer a palpação da mama uma vez por mês fora do período menstrual. Devem posicionar-se em frente do espelho e estar familiarizadas com o aspecto das suas mamas. Ao palpar as mamas devem incluir a parte superior do peito e axilas. Nódulos ou espessamentos, líquido no mamilo, alterações de textura e cor da pele, inversão do mamilo e alterações da forma ou tamanho da mama são sinais de alarme. Já os homens também devem fazer o autoexame dos testículos a partir da puberdade e também uma vez por mês, de preferência no banho. Alterações de forma, tamanho ou consistência são sinais de alarme. Outro cancro em que o autoexame é essencial é o da pele. Todas as pessoas devem autoexaminar-se de três em três meses e, caso tenham muitos sinais, pelo menos uma vez por mês. Deve inspeccionar--se todo o corpo, incluindo couro cabeludo, plantas dos pés, pele entre os dedos e debaixo das unhas, costas, nuca e nádegas. Sinais anómalos com dois ou mais dos seguintes critérios devem ser observados por um médico: assimetria, bordo irregular, cores diversas e muito escuras, diâmetro superior a 5 milímetros e alterações recentes.

Conhecer a história familiar
Há alguns cancros para os quais já se identificaram mutações genéticas hereditárias, como o caso de alguns tumores da mama ou do cólon. Por exemplo no caso do cancro da mama, sabe-se que as portadoras de mutações nos gene BRCA1 têm um risco de cancro da mama até aos 70 anos 50% a 85% maior e de cancro do ovário até 60%. Consoante o risco, pode ser indicado fazer uma mastectomia preventiva ou remoção dos ovários, o que reduz o risco. Mas mesmo para os cancros em que não estão identificadas alterações genéticas, sabe-se que haver o historial na família está ligado a um maior risco. Deve estudar o lado materno e paterno da família e, se tiver mais de dois familiares com historial de cancro, procurar uma consulta de risco familiar. Se tiver um familiar de primeiro grau diagnosticado com cancro, o risco pode aumentar duas a três vezes, o que pode justificar começar a fazer rastreio mais cedo. Por exemplo uma pessoa cujo pai e avô tenham tido cancro da próstata tem um risco 80% superior.

Infecções
Duas infecções relativamente comuns estão ligadas a cancro. O único com vacina é o cancro do colo do útero, causado pelo vírus do papiloma humano. O SNS comparticipa se começar a ser tomada até aos 18 anos, sendo que deve ser feita a partir dos dez. Já a infecção com a bactéria Helicobacter pylori é uma das causas conhecidas de cancro de estômago. É muito comum e na maioria das vezes não tem sintomas. Mas pessoas com desconforto digestivo persistente devem fazer uma endoscopia e, caso dê positivo, podem fazer um tratamento com antibióticos, que reduz o risco.

Fonte: “Cancro Ponto e Vírgula”, IPATIMUP, 2014

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