Em três anos, a concessionária dos jogos sociais do Estado - do Euromilhões ao Totoloto - denunciou à PJ um total de 34 casos suspeitos de lavagem de dinheiro com montantes dos prémios ganhos.
O esquema é simples e envolve, no limite, apenas três pessoas: uma, que tem elevados montantes de dinheiro em numerário acumulados, por exemplo, a traficar estupefacientes - ou noutras atividades ilícitas; outra, que teve a sorte de vencer um dos prémios da Santa Casa da Misericórdia; e uma terceira pessoa que serve de intermediária para a operação.



Na prática, não é fácil recolher provas, mas o mais comum é que um intermediário, por norma o agente do balcão no qual foi feita a aposta vencedora, contacte o ganhador do prémio explicando-lhe que há um interessado em comprar-lhe o montante que lhe foi atribuído. Assim, quem tem dinheiro "sujo" compra o prémio, paga uma comissão ao ganhador e ao intermediário que os colocou em contacto e ganha uma desculpa para depositar legalmente um montante elevado sem despertar suspeitas.

Segundo o Jornal de Notícias, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa denunciou 34 destes casos nos últimos três anos, suspeitando que o dinheiro dos prémios poderá estar a ser usado para "lavar dinheiro sujo". A concessionária dos jogos sociais do Estado é uma das entidades não financeiras que estão obrigadas a comunicar à Unidade de Informação Financeira (UIF) da Polícia Judiciária e ao Ministério Público as operações que levantem suspeitas de branqueamento de capitais. De acordo com o jornal, nos relatórios da UIF surgem, ao todo, 34 alertas da Santa Casa deste tipo: 13 em 2012, oito em 2013 e mais 13 em 2014. Em 2011, ficou nos registos apenas um caso suspeito.
Apesar de não ser revelado o montante do dinheiro eventualmente "branqueado", o JN cita fonte policial que explica que está em causa "um esquema clássico de branqueamento", que terá sido potenciado pelo anonimato das apostas: antes, quem registava o Totoloto, por exemplo, tinha de colocar o nome no boletim. Outro incentivo para ganhos ilegais com os prémios poderá estar relacionado com o fisco, uma vez que desde 2013 as finanças ficam com 20% dos prémios com montantes mais elevados.
Os prémios acima de cinco mil euros têm de ser levantados no Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pelo portador do bilhete ou boletim premiado, mediante apresentação de identificação. E apesar de não se conhecerem os indícios que fizeram disparar o alarme da Santa Casa, motivando a denúncia às autoridades, o JN escreve que podem estar relacionados com o "excesso de sorte dos apostadores". O jornal cita o caso de um indivíduo do Norte do país que, há alguns anos, levantou suspeitas por ter recebido no espaço de pouco tempo vários prémios do Totoloto.


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