Devido ao comportamento demonstrado na primeira sessão do julgamento, o tribunal receava que a mulher não testemunhasse. O juiz decidiu que deveria ser detida, tendo ficado numa cela adjacente à do seu agressor.



O caso reporta a 2015 mas só agora foi tornado público pela CBC e está a indignar o Canadá. Um tribunal decidiu deter uma mulher que tinha sido violada juntamente com o seu agressor. A decisão do tribunal foi justificada com o receio de que a vítima não testemunhasse contra o agressor, isto apesar de a mulher ter aparecido sempre em tribunal nos dias do julgamento. A vítima teve assim de passar cinco dias detida numa cela adjacente à do seu agressor.

A mulher, cuja identidade não foi revelada, foi violada em 2014 em Edmonton. Na altura do ataque, teria 27 anos. A vítima era uma sem-abrigo que procurou refugiar-se num edifício numa noite mais fria. Adormeceu nas escadas e acordou com um homem a puxar-lhe o cabelo e com uma faca encostada ao seu pescoço. Dave Blanchard, um homem com um historial de agressões sexuais, levou a vítima para o seu apartamento. Bateu-lhe, esfaqueou-a e acabou por violá-la. Enquanto estava a ser agredida, a mulher conseguiu ligar para o 911 (o equivalente ao 112 português) e alertou as autoridades. Mas infelizmente o seu pesadelo estava longe de acabar.

Um ano depois, a mulher aparece no tribunal para o julgamento. Mas o juiz não ficou satisfeito com a sua atitude agressiva e agitada. Com receio de que não testemunhasse, recorreu a uma lei canadiana que permite deter testemunhas que se recusem a testemunhar.

Enquanto esteve detida, a mulher foi transportada de e para o tribunal com o seu agressor. As algemas eram retiradas no tribunal mas as grilhetas mantinham-se. Os sucessivos pedidos para ser solta foram recusados. “Eu sou a vítima”, disse a mulher em tribunal. E só foi solta quando terminou o seu testemunho, cinco dias depois.

O juiz condenou Blanchard mas a vítima nunca receberia sequer um pedido de desculpa pelo modo como foi tratada. Acabaria por ser acidentalmente morta durante um tiroteio em dezembro de 2016.


A ministra da justiça da região de Alberta, Kathleen Ganley, lamentou a forma como a mulher foi tratada durante o julgamento e pediu desculpa à sua mãe. “Os factos deste caso são perturbadores e trágicos, e quando acrescentamos o tratamento a que a vítima foi sujeita pelo sistema, são quase incompreensíveis”, disse Ganley,

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