Concurso para compra de novos comboios arranca até abril. Fabricante espanhola já está em contacto com fornecedores locais










A CP vai comprar novos comboios pela primeira vez em quase duas décadas. Até ao final do primeiro trimestre, a empresa pública ferroviária vai abrir o concurso público para a aquisição de novo material circulante.



Apesar de o caderno de encargos ainda não estar concluído, são conhecidas as carências de comboios da CP, sobretudo nas ligações de longo curso (Alfa Pendular e Intercidades) e nos comboios regionais. Mas há dois problemas: as linhas portuguesas e espanholas são diferentes de quase toda a Europa – a distância entre carris (bitola ibérica) é de 1668 milímetros, em vez de 1435 milímetros – e várias linhas ainda não estão totalmente eletrificadas.




A resposta a estes desafios pode ser dada pela Talgo. A empresa espanhola fundada em 1942 está pronta para participar no concurso público. “Já estamos mesmo em contacto com fornecedores locais”, adiantou João Constantino Meireles em encontro realizado com jornalistas nesta semana, em Madrid. O líder de desenvolvimento de negócio para Portugal recorda também que a empresa espanhola poderá fazer a montagem final dos comboios em território nacional se isso for pedido no caderno de encargos.



A empresa espanhola poderá participar no concurso com o “todo-o-terreno dos comboios” de alta velocidade. O modelo 250 Híbrido pode ser adaptado a várias correntes e voltagens (1500 e 3000 v em corrente contínua e 25 000 v em corrente alternada) e pode circular em linhas com bitola ibérica e europeia e combustível (eletricidade e diesel).



A mudança de bitola é feita em “cambiadores” instalados à entrada ou saída de estações, com o comboio a mover-se até 15 km/h. O comboio, em bitola europeia, chega ao cambiador e o rodado, um de cada vez, apoia nos carris e as rodas ficam no ar, sem se mexer. Anda-se mais um pouco e entram umas guias, que baixam e libertam a roda, que pode mexer-se para um lado ou para o outro, conforme a bitola. Isto é feito uma composição de cada vez, enquanto o comboio está levitado. Nesta fase entra um carril guia que empurra a roda para dentro ou para fora conforme a bitola pretendida. As guias voltam a entrar o comboio volta a circular normalmente. O processo demora pouco mais do que um minuto.









Em modo elétrico, pode circular até 250 km/h; com motor a diesel, a velocidade máxima é de 180 km/h. “É um comboio que se coloca neste momento em Portugal e pode circular por todas as linhas”, lembra João Constantino Meireles. Cada comboio destes custa 19 milhões de euros, de acordo com o preço praticado em concursos anteriores.



Nas linhas regionais, a empresa espanhola tem um modelo que circula até 160 km/h e que pode operar também com vários sistemas de eletrificação e de tração. Esta solução poderá ainda ser adaptada aos serviços urbanos e pode circular mesmo com diferentes voltagens. A Talgo admite, por isso, concorrer ao concurso de mudança de frota da linha de Cascais, caso esteja incluído no caderno de encargos. As atuais composições datam das décadas de 1960 e 1970 e apenas são mantidas graças ao enorme esforço da EMEF – Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário.



As propostas da empresa espanhola foram apresentadas com base no caderno de encargos do concurso público de 2009 e que acabou por ficar a meio devido à deficiência das propostas.


A aposta em comboios híbridos, de dupla bitola e funcionais com várias correntes elétricas não é muito utilizada pelas fabricantes internacionais. Além da Talgo, apenas os bascos da CAF e os suíços da Stadler têm soluções deste género disponíveis na Europa. Entre a abertura do concurso e a entrega dos comboios são necessários, pelo menos, 36 meses. Ou seja, a CP terá de alugar comboios pelo menos durante mais três anos.