Segundo a tradição, Deus concedeu aos primeiros cristãos da Etiópia, refugiados nos planaltos elevados do Norte, a graça de revelar-lhes a Sua morada. E estes meteram mãos à obra, escavando no arenito vermelho dos desfiladeiros do maciço de Gheralta mais de 160 igrejas rupestres, esculpidas com paciência e magnificamente decoradas, nos lugares mais profundos das montanhas da fé.



Diz-se também que Deus apareceu um dia aos reis irmãos Abreha e Atsbeha, ordenando-lhes que acorressem às montanhas escarpadas da região do Tigré e desvendassem, perante os olhares dos fiéis devotos, uma igreja que ali se encontrava enterrada desde o princípio dos tempos.












Abreha e Atsbeha partiram do seu palácio, aventurando-se até às montanhas, e escalaram as cristas montanhosas de Korkor, mas os cumes cinzelados por mão divina revelaram-se inacessíveis. Rogaram a Deus que os auxiliasse, e Ele, com um simples gesto, partiu a montanha de alto a baixo, logo exigindo a Satanás que preenchesse a fenda com aquela rocha fundida que ferve nas entranhas do Inferno, dela fazendo uma escadaria. Ao solidificar, a lava negra conduziu os dois irmãos ao topo sagrado onde se ocultava a morada de Deus. Pedra a pedra, os monarcas escavaram ali uma das mais belas igrejas rupestres da Etiópia.




Degrau a degrau, transpomos este caótico acesso natural que a rocha ígnea abriu no arenito vermelho. Como é possível que, já no século VI, aqueles monges soubessem que uma rocha surgida das profundezas, aproveitando os pontos fracos do terreno, cobrira a rota de acesso à montanha de Korkor?







Esta pergunta intriga-me, enquanto nos vamos infiltrando no coração da lenda de Abreha e Atsbeha. Durante uma hora e meia, caminhamos através dos picos e fachadas vertiginosas do maciço de Gheralta, que se ergue no coração da região do Tigré Oriental, no extremo setentrional da Etiópia e com uma paisagem digna do Faroeste norte-americano.



Alcançamos um patamar planáltico que domina, do alto dos seus duzentos metros de altitude, a árida savana salpicada de acácias. Numa saliência coberta de figueiras-da-índia, um monge de hábito amarelo e o seu discípulo lêem em voz alta os textos sagrados, escritos num missal forrado a pele de cabra. Por trás, vê-se uma parede caiada, a única construção visível em todo o penhasco, e uma porta. Descalçamo-nos, por respeito à montanha sagrada. Com um sorriso nos lábios, o monge retira a chave que traz ao pescoço e abre-nos a porta.




Primeiro, acomete-nos uma sensação de frescura. De seguida, vão emergindo pouco a pouco da escuridão enormes pilares, arcos e cúpulas decoradas. Acedemos à intimidade de um espaço de culto conquistado à rocha, uma basílica com três naves que se revela diante dos nossos olhos graças a clarabóias estreitas. Doze pilares com as suas pilastras, arcos, abóbadas e cúpulas!






Segundo a tradição, foi um sacerdote chamado Yemata que, aproximadamente no século V, escavou a igreja com o seu nome. Numa das paredes, surge a figura do religioso a cavalo, junto de outros santos e apóstolos.


E, embora o entalhe da pedra se mostre algo tosco, as dimensões (16 metros de comprimento por 10 de largura e 6 de altura) são monumentais para uma igreja totalmente escavada em pedra. Entre os simples e expressivos frescos da época bizantina, pintados na própria rocha, pode apreciar-se a figura da Virgem Maria sentada num trono, uma parelha de gazelas, camelos com rosto humano e postura heráldica, os Reis Magos, bandos de aves, entre tantas outras figuras.




Maryam Korkor é uma das 160 igrejas rupestres escavadas nas maiores profundezas da rocha, nos cumes abruptos dessas montanhas recônditas. As comunidades do Tigré conhecem a sua existência desde tempos imemoriais, mas o resto do mundo descobriu-as no início da década de 1960, graças ao labor de um missionário católico etíope, Abba Tewoldemedhin Yosef, e dos seus compatriotas ortodoxos. Estes estudiosos identificaram mais de 120 igrejas e, com o apoio do Instituto de Arqueologia da Etiópia, fizeram os primeiros estudos do vasto inventário arquitectónico, mais tarde cartografado com rigor.







Celebrações da Páscoa em Maryam Korkor. Devido às suas dimensões (16 metros de comprimento por 10 de largura e 6 de altura), trata-se de uma das maiores igrejas rupestres e com uma estrutura arquitectónica mais complexa.



Apesar da altitude, a ascensão até Maryam Korkor pareceu-nos fácil: com uma semana acumulada a descer gargantas profundas, a escalar precipícios e a avançar descalços com enorme cuidado por estreitas saliências suspensas sobre o vazio, talvez já estejamos vacinados contra as vertigens.



Não muito longe dali, a exígua entrada para a capela da ermida de Abba Daniel abre-se sobre uma grande saliência que se ergue trezentos metros acima de uma quebrada a pique. Os pontos de apoio talhados nas fachadas verticais de arenito pela passagem milenar dos peregrinos e uma saliência inclinada conduzem-nos até Guh, outra jóia arquitectónica, ao mesmo tempo vertiginosa e magnificamente decorada.



E Debre Damo é uma autêntica encruzilhada de caminhos religiosos da região: diz-se que esta cidadela monástica, localizada nos confins de Gheralta, foi fundada no século VI. Para ali chegarem, os homens são içados por meio de sólidas cordas de couro entrançado, semelhantes às que segura um monge risonho: a mim, porém, é proibido o acesso. Ali ficam também Abuna Gebre Mikael, a chamada “igreja azul” devido aos impressionantes matizes dos seus frescos e abóbadas, Debre Tsion (igualmente denominada Abuna Abraham, que se ergue na sua atalaia), e muitas outras mais.








O guarda de Debre Tsion (também chamada Abuna Abraham) abre um dos tesouros guardados nesta igreja, um leque cerimonial do século XV. Com um metro de diâmetro, é composto por 34 painéis individuais, cada qual com a figura de um santo.


Que cérebros lograram conceber construções tão elaboradas como estas, com três ou mesmo cinco naves, escavadas em toda a sua extensão a partir de uma minúscula abertura na montanha? Que métodos e ferramentas foram utilizados para perfurar a montanha e criar nas suas entranhas as harmoniosas curvas dos pilares, volumes, capitéis, arcos e cúpulas? Em que época foram escavados estes assombrosos locais de culto rupestres?



Inundada de perguntas, Luigi Cantamessa apoia-se na rocha quente de Maryam Korkor e responde: “A verdade é que não sabemos praticamente nada sobre esses arquitectos, escultores e pintores”, comenta este erudito italiano que nos guia nesta peregrinação. Os estudos históricos e arqueológicos apontam para os séculos VI a XIV como data possível para a construção das igrejas rupestres do Tigré. As igrejas narram a história do cristianismo etíope e descrevem a evolução dos ideais monásticos da Idade Média.







Uma jovem usa as suas melhores roupas para assistir a um casamento, numa aldeia ao pé do maciço.


Luigi nasceu no Piemonte, mas passou grande parte da sua vida deambulando pela Etiópia. Este grande viajante apaixonado por vulcões participou nas primeiras missões levadas a efeito pelo famoso vulcanólogo francês de origem polaca Haroun Tazieff na Etiópia, uma vez terminada a guerra de libertação, e não se cansa de falar sobre a história da sua pátria de adopção: “A Etiópia é uma das mais antigas nações cristãs. A sua rápida conversão deve-se à importante presença na Etiópia de mercadores e comerciantes judeus provenientes de Alexandria, que falavam grego e, em parte, se tinham convertido ao cristianismo”, explica.



O maciço etíope é um importante ponto de encontro de rotas comerciais desde a Antiguidade, o que favoreceu a circulação de ideias e facilitou a penetração das culturas semítica e síria. No século I d.C., surgiu na região um estado independente com capital em Aksum [ver edição de Julho de 2001]. A presença de mercadores egípcios helenizados foi ganhando relevância e o grego foi adoptado como idioma oficial do reino.










“Este contexto permite-nos



compreender melhor a maneira como começaram a difundir--se as ideias cristãs no início da nossa era”, prossegue. “Na ‘Historia Eclesiástica’ de Rufino de Aquileia, obra escrita aproximadamente no ano 390, o autor religioso relata que, no início do século IV, dois jovens filósofos cristãos da Síria chamados Frumêncio e Edésio foram capturados no mar Vermelho e vendidos como escravos ao rei da Etiópia, descobrindo em Aksum uma comunidade cristã. Frumêncio acabou por tornar-se o primeiro bispo do lugar, após converter a corte de Aksum e os reis irmãos Abreha e Atsbeha.



Um jovem monge ergue uma Bíblia iluminada, encadernada a pele de cabra e traduzida para ge’ez.


A evangelização da Etiópia atingiu o seu apogeu nos séculos V e VI com a chegada de novos missionários provenientes do Médio Oriente, sendo os mais famosos os chamados ‘nove santos sírios’, considerados os pais fundadores da igreja etíope. Foram formadas comunidades monásticas numa constelação de grutas onde cada membro vivia isolado e traduziu-se, de grego para ge’ez (idioma pertencente ao grupo das antigas línguas semíticas meridionais) o Antigo Testamento, o Novo Testamento e outros textos sagrados.”



A voz de Luigi perde-se à medida que vamos descendo e a luz se apaga, suavizando os relevos e as sombras. Regressamos à planura, cheia de vida com a passagem dos pastores que trazem os rebanhos e burros a pastar, autêntico retábulo bíblico vivo nos sopés de Gheralta.








Defronte da entrada de Maryam Korkor, no topo do penhasco rochoso, um jovem noviço recita os textos sagrados na presença do seu monge preceptor. Para chegar a esta igreja, é preciso mais de uma hora de subida por meio de uma escada íngreme escavada na montanha.


As suas rochas ardentes, que assim permanecem mesmo depois do pôr do Sol, continuam a não nos revelar todos os seus segredos, esses que tenta desvendar Asfawossen Asrat Kassaye, perito em geoquímica e petrologia da Faculdade de Ciências da Terra da Universidade de Adis Abeba.


“As 160 igrejas inventariadas apresentam uma característica comum”, explica este geólogo que estudou a composição das rochas em que se encontram esculpidas. “Todas foram escavadas em arenito, em especial nos bancos de Adigrat e Enticho, onde a pedra é suficientemente branda para poder ser trabalhada com ferramentas antigas, mas suficientemente compacta para resistir à pressão exercida, primeiro pela escavação, e, de seguida, pela estrutura. As obras não deviam ver-se afectadas nem por estruturas geológicas, como falhas ou diáclases, nem pela acção das águas subterrâneas.”








As paisagens áridas e montanhosas do maciço de Gheralta, na extremidade setentrional da Etiópia, foram uma encruzilhada de culturas desde os tempos antigos. O cristianismo chegou a esta região do ***** de África nos primeiros séculos da nossa era, pela mão de mercadores de origem egípcia que falavam o idioma grego e de missionários provenientes do Médio Oriente.


Os escultores rejeitaram a rocha calcária por ser demasiado frágil e a basáltica por ser demasiado compacta e fissurada. “É evidente que os construtores dessa época possuíam conhecimentos admiráveis sobre a natureza das camadas geológicas, equiparáveis aos possuídos por aqueles que, cinco séculos antes, conceberam Petra”, conclui o geoquímico.



As multidões de fiéis que acorrem às igrejas de Tigré aos domingos e dias santos são uma boa prova do extraordinário fervor religioso que existe na Etiópia, uma nação multiétnica, multicultural e multilingue. Cerca de 62% dos habitantes do país são cristãos, a grande maioria dos quais vive nos planaltos de altitude e pertence à igreja ortodoxa etíope, durante muito tempo religião oficial do Estado. No entanto, as minorias, com destaque para os cerca de 33% de muçulmanos, esforçam-se por fazer ouvir a sua voz. Há muito tempo que o islão se encontra arreigado nesta região, onde os seguidores do Profeta descobriram um refúgio depois de sofrerem perseguições em Meca.








Em Abuna Yemata Guh, frescos pintados há cerca de 350 anos revestem as paredes, pilares e abóbadas da igreja com as figuras de alguns apóstolos e de santos etíopes.


“O território da Abissínia sempre foi uma ilha cristã rodeada de nações islâmicas”, recorda Luigi Cantamessa. “E, por isso, sempre se achou sob grande pressão.” Nos últimos 20 anos, a comunidade islâmica etíope recebeu apoios da Arábia Saudita, o que permitiu construir mesquitas e escolas corânicas e financiou peregrinações. Nos países vizinhos, prevalece a ideia de que a Etiópia é uma nação cristã que urge conquistar e não a terra que acolheu os primeiros muçulmanos perseguidos. E a própria Etiópia considera-se uma barreira face ao islão. O nosso guia mostra-se optimista: “Um grupo de dignitários católicos, ortodoxos e muçulmanos da localidade de Adigrat fundou uma associação cujo objectivo consiste em encontrar, em conjunto, soluções adequadas para os problemas sociais, culturais e sanitários da população do Tigré, e recebeu uma resposta entusiástica, primeiro dos municípios mais importantes da região e, seguidamente, de todo o país.”




As igrejas do Tigré, embutidas numa fortaleza natural, foram projectadas para permitir que os fiéis se afastassem do mundo dos homens e se aproximassem da pureza. Ou não é verdade que a montanha é sinónimo de força e eternidade no Antigo Testamento?









O acesso ao mosteiro de Debre Damo é permitido exclusivamente a homens, que precisam de subir por uma parede vertical com mais de 15 metros de altura, ajudados por cordas entrançadas de couro.


A morada de Deus, incrustada na rocha desde a própria Criação, é um elemento muito presente no mundo semita e na ortodoxia etíope. Os fiéis da região afirmam que outras igrejas, ainda ocultas, aguardam que o sonho de algum crente, ou outro sinal, as revele. Luigi Cantamessa recorda as suas primeiras visitas ao Tigré: “Enquanto me mostrava a sua igreja, o sacerdote não deixava de olhar em redor, de auscultar a pedra. Cheirava até a mais ínfima fissura para aspirar, segundo me disse, os aromas a incenso que saíam das divinas moradas ainda ocultas dentro da rocha.”








Com as suas pinturas murais em tonalidades ocres e azuis, a igreja de Abuna Gebre Mikael é uma das mais belas do Gheralta. Conhecem-se 160 igrejas rupestres na região do Tigré.



Para os sacerdotes que, enquanto cultivam um pequeno terreno e cuidam da família, perpetuam o cristianismo ortodoxo, retocam a pintura dos frescos litúrgicos e acolhem as multidões de fiéis nos domingos e dias feriados é óbvia a resposta à pergunta sobre a origem derradeira das igrejas: é o próprio Deus que envia uma mensagem e lhes ordena que revelem a Sua morada oculta nas rochas do Tigré.