Técnica cirúrgica revolucionária 'devolve' movimentos de mão a amputado



O médico pede para que o paciente erga o polegar da mão direita e faça o sinal de "joinha". Parece um pedido absurdo para um homem amputado e que não usa uma prótese biônica. Mas, mesmo sem a mão, Jerry Majetich consegue realizar o movimento. O movimento dos músculos do antebraço comprovam. Mas como seria possível? Em 2020, o veterano da Guerra do Iraque, que sofreu graves ferimentos em uma explosão, foi o primeiro paciente submetido a uma técnica de amputação (conhecida como AMI) que preserva uma espécie de "memória muscular", em membro supeior. O procedimento revolucionário restaura o que é conhecido como propriocepção, a capacidade do cérebro de sentir onde os nossos membros estão no espaço e com que rapidez e força estão se movendo. A ideia da técnica é ajudar o cérebro dos pacientes a sobrepor um membro fantasma a um membro protético, proporcionando uma sensação mais plena de restauração dos seus corpos.

"Eu ainda posso senti-la (a mão direita)", disse o americano ao médico, em reportagem do site "Statnews". "Todos os dedos parecem estar no lugar certo", acrescentou o veterano.

A técnica cirúrgica já havia sido usada em pacientes submetidos à amputação de membros inferiores por uma equipe de cirurgiões de um hospital militar em Bethesda (Maryland, EUA). O procedimento recria as conexões entre os músculos que são perdidas na cirurgia de amputação padrão.

Depois de Jerry, três outros pacientes passaram pelo mesmo procedimento em mebro superior. No geral, foram mais de 30 pacientes, incluindo um campeão paralímpico.

Os pacientes descreveram a sensação de seu membro fantasma de várias maneiras, disse Matthew Carty, médico do Walter Reed National Military Medical Center. Alguns dizem que, quando imaginam mover a mão, parece que ela está exatamente onde antes estava, enquanto outros dizem que sentem que ela se estende e "rola para fora do coto".



Muitos resistem à ideia. Jerry, por exemplo, levou 15 anos para aceitar ser submetido à amputação da mão, ferida gravemente em outubro de 2005, quando uma mina explodiu sob o seu Humvee, nos arredores de Bagdá. O veterano teve ainda sérios ferimentos no rosto, perdendo as orelhas e parte do nariz, três fraturas na espinha e queimaduras em 37% do corpo. Ao ser retirado da cena, Jerry ainda foi atingido por tiros no ombro direito (uma vez) e na perna direita (três vezes).

O americano também perdeu dois dedos da mão direita e partes dos outros dedos que restaram. A mão era coberta de cicatrizes.

"Eles (os médicos) sugeriam tirar, mas eu não queria, porque quando ela segurava minha mão, eu podia sentir", disse ele, olhando para a sua esposa, Mary-Ella. "Eu pensei que fosse uma coisa importante", acrescentou.



As dores eram cada vez mais fortes, mas ele lutava para manter o que havia restado. Até que sucumbiu, submetendo-se à 81ª cirurgia, com o apoio da mulher.

Em um estudo publicado em dezembro do ano passado, a cientista Shriya Srinivasan relatou que, quando os pacientes submetidos à técnica AMI moviam o tornozelo fantasma, uma parte do cérebro associada à propriocepção se iluminava em ressonâncias magnéticas tanto quanto em pacientes com membros intactos. Isso sugere que a cirurgia restaurou totalmente a capacidade dos pacientes de sentir a posição e o movimento de seus membros. Em pessoas que tiveram amputações padrão, a ativação desta região foi reduzida significativamente.

A restauração da propriocepção pode, de certa forma, dar aos pacientes a sensação de ter um pé de verdade. Um amputado na técnica AMI estava caminhando recentemente enquanto usava uma prótese padrão e entrou em um riacho. Mais tarde, ele descreveu ter a sensação de água fluindo sobre seu pé protético, embora não houvesse, obviamente, como perceber isso.

"Ele confiou ou incorporou a sua prótese mais do que alguém que não tem essa sensação fantasma", disse Carty, que desenvolveu a técnica juntamente com Hugh Herr, cientista do renomado centro tecnológico americano MIT.


Fonte:extra.globo