O comportamento dos animais depende muito da forma como percepcionam o mundo à sua volta. A percepção consiste na interpretação da informação proveniente dos “sentidos”, à luz da experiência que o animal adquiriu e de inferências que faz inconscientemente. Os processos sensoriais são, de facto, relevantes para a capacidade de reacção às alterações do meio e, consequentemente, para a capacidade de sobrevivência e reprodução. Deste modo, quando tentamos interpretar o comportamento animal, temos que ter em conta que a forma como esse indivíduo sente e percepciona o ambiente está adaptada à sua forma de vida, à sua história evolutiva. Nós, humanos, usamos as nossas próprias capacidades como referência para compreender como é que o tacto, o paladar, a audição, a visão e o olfacto afectam o comportamento dos cães, o que é, por si, restritivo. Para ter uma ideia o mais realista possível, são importantes as informações acerca da anatomia e fisiologia e a sua complementação com observações comportamentais.


Com este artigo pretendo fazer uma breve “incursão” pelo mundo das sensações caninas, alertando para as inevitáveis diferenças relativamente à espécie humana.


Tacto
Na fase inicial da vida de um cachorro o tacto é o sentido mais importante, sendo fundamental o conforto do contacto com a progenitora. As sensações tácteis são primordiais para o desenvolvimento normal: os cães privados do tacto tendem a tornar-se adultos com comportamentos problemáticos (ex. excessivamente medrosos). A importância deste sentido não restringe à fase mais precoce, perpetuando-se ao longo da vida do animal e constituindo a mais potente recompensa que um cão pode receber (excepto se for treinado com itens alimentares). Vários estudos sugerem que um afago de uma pessoa conhecida pode reduzir os sinais de excitação do animal, nomeadamente, diminuir o seu ritmo cardíaco, a pressão sanguínea e a temperatura corporal.


O tacto constitui uma importante forma de exploração do meio ambiente. Para além das terminações nervosas sensoriais existentes em todo o corpo, os cães possuem pêlos especiais (vibrissas), localizados por cima dos olhos, por baixo das mandíbulas e no focinho. As vibrissas, inseridas em tecidos com irrigação sanguínea intensa e com um maior número de terminações nervosas, são tão sensíveis que permitem ao cão sentir uma leve corrente de ar ou, mesmo, determinar a forma e a textura de um objecto.


Paladar
Para além do tacto, o paladar (ou gosto) é o único sentido desenvolvido logo após o nascimento. No entanto, os cães não têm um sentido do paladar tão apurado como o nosso, possuindo consideravelmente menos papilas gustativas, localizadas sobretudo na porção anterior da língua. Descendem de carnívoros selvagens, para quem, face à energia dispendida, o sabor é provavelmente menos importante do que as características nutritivas da carne da presa. De qualquer modo, os cães possuem receptores para o doce, o amargo, o ácido e o salgado, sendo provável que também consigam distinguir o sabor de diferentes águas, através receptores específicos.


Embora importante, o gosto, por si, não é determinante para as preferências alimentares de um cão. A palatibilidade do alimento, mais importante para os cães domésticos do que para os seus ancestrais selvagens, baseia-se no odor, na textura e no sabor. Apesar de possuírem especializações adaptadas ao regime carnívoro, os processos envolvidos na selecção de alimentos são relativamente flexíveis, variando os “alimentos aceitáveis” de acordo com a sua disponibilidade e a sua qualidade. O comportamento alimentar é complexo nesta espécie. A mudança de estilo de vida, associada à proximidade com os humanos, poderá ter tido influência (ex. segundo alguns estudos, os cães preferem carne cozinhada à crua). De acordo com alguns trabalhos de investigação, as preferências caninas podem mesmo relacionar-se com as preferências dos donos, bem como com os ambientes físico e social em que os cães se encontram.


Audição
A capacidade auditiva dos cães é bastante superior à nossa. Ouvem sons de frequências mais altas: superiores a 50.000 Hz, enquanto nós atingimos frequências até 20.000 Hz. Esta sensibilidade aos ultra-sons tem sido aproveitada, nomeadamente para o treino através de dispositivos específicos. De acordo com vários cientistas, o limite inferior dos sons audíveis, no espectro de frequências, para as duas espécies é semelhante. A audição dos cães, mesmo entre os 1.000 e os 8.000 Hz, é mais eficaz que a dos humanos. Para além disso, os nossos companheiros caninos possuem uma outra vantagem: orelhas móveis! Esta característica permite-lhes “examinar” o ambiente e depois receber as ondas de som. O cão pode localizar um som com uma orelha e depois, com as duas, colectar o máximo de ondas sonoras, conseguindo ouvir a uma distância superior à que nós conseguimos. A sensibilidade auditiva dos cães interfere no seu comportamento, sendo importante notar que um cão doméstico está sujeito a uma enorme panóplia de sons que ocorrem numa casa familiar (ex. televisão, rádio, outros electrodomésticos, etc.), que aprende a ignorar para conseguir adaptar-se!


Visão
A visão dos cães é bastante diferente da nossa. Têm melhor visão lateral e pior visão binocular que os humanos. Este facto deve-se ao posicionamento dos olhos (mais lateral ou mais frontal). Por isso, existem grandes diferenças no ângulo de visão entre as várias raças. O lobo tem mais visão lateral que muitas raças de cães. Durante o processo de domesticação e selecção artificial, “infantilizámos algumas raças”, cujos olhos se encontram numa posição mais frontal.


Embora a sua visão ao perto não seja boa, à distância melhora bastante (ex. um cão pastor pode distinguir um sinal com a mão a 1 km). A visão nocturna dos cães é também bastante superior à dos humanos: apesar de não verem tão bem como um gato no escuro, vêem muito bem num ambiente com luminosidade reduzida. Têm uma camada reflectora posicionada debaixo das células receptoras (bastonetes e cones), que lhes reflecte a luz. Os bastonetes, sensíveis a baixos níveis de luminosidade (mas a preto e branco), são fundamentais para uma visão nocturna. Os cones são necessários para ver “à luz” e para uma visão colorida. Vários estudos sugerem que a visão dos cães poderá não ser exclusivamente a preto e branco, podendo haver uma visão colorida rudimentar, mas suficiente para distinguir objectos segundo a cor. Uma curiosidade citada por alguns autores postula que, pelo menos em teoria, os cães têm acuidade suficiente para transformar a transmissão televisiva europeia (625 dots por segundo) numa imagem visual, mas não a americana (525 dots por segundo). Segundo observação de alguns cientistas americanos, esta afirmação não corresponde ao que acontece na realidade!


A visão tem um importante papel ao nível da comunicação e, portanto, no contexto social. As posturas corporais e as expressões faciais são de grande importância neste âmbito, pelo que uma deficiência no sentido da visão poderá resultar comportamentos sociais inapropriados, sendo também de referir a possibilidade de ocorrência de outros problemas comportamentais (ex. comportamentos exagerados de medo, problemas de navegação em ambientes desconhecidos, etc.).


Olfacto
Os odores exercem uma forte influência na fisiologia e no comportamento dos cães. As memórias dos cheiros podem durar uma vida. O olfacto é, provavelmente, o sentido mais importante em “termos práticos”, mas também o mais difícil de compreendermos e inferirmos. Na verdade, existem diferenças abismais entre as nossas capacidades olfactivas e a dos cães. Enquanto nós possuímos cerca de 5 milhões de receptores olfactivos, um cão possui cerca de 220 milhões. Se estendêssemos as suas membranas nasais, a sua superfície seria superior à superfície total do seu corpo. Os cães conseguem cheirar odores tão diluídos que não são mensuráveis através dos instrumentos científicos mais sensíveis.


A capacidade de cheirar e interpretar o ambiente à sua volta depende de um complexo sistema sensorial químico. Os cães possuem narinas móveis que os ajudam a determinar a direcção do odor. Um comportamento fundamental no contexto olfactivo consiste na interrupção do padrão respiratório regular e numa inspiração profunda – aspiração (sniff). O ar assim inspirado permanece “aprisionado” nas cavidades nasais, ao contrário do inspirado através da respiração normal (que é conduzido para os pulmões).


De acordo com vários trabalhos de investigação, os machos caninos tendem a ter melhores performances no seguimento de pistas que as fêmeas. Esta diferença poderá dever-se ao facto de os machos tenderem a utilizar mais as suas capacidades como sniffers nos seus comportamentos territoriais e sexuais. A sensibilidade aos odores é fortemente influenciada pela componente genética, o que se traduz em variações entre as raças (ex. um Beagle tem provavelmente melhor olfacto que um Fox Terrier; é provável que um Bloodhound detecte melhor um cheiro no chão e um Collie o detecte melhor no ar). É possível melhorar o sistema olfactivo através de um programa de cruzamento cuidado e através do treino, já que a capacidade de detecção de cheiros tende a melhorar com a exposição sistemática a esses odores.


Estudos têm sugerido que o olfacto tem ligação com o sistema límbico, a zona do cérebro responsável pelas emoções. Existem, mesmo, cientistas que afirmam que a mente dos cães é provavelmente permeável aos odores sociais humanos e que cheirar estes odores permite-lhes descodificar e integrar os nossos comportamentos e, talvez, os nossos estados emocionais!