O mistério das jóias portuguesas

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O brilho das pedras e metais preciosos em Portugal pode ser enganador. Tal como um olhar menos atento sobre uma jóia reluzente pode deixar escapar uma falsificação bem conseguida, as estatísticas do sector da Ourivesaria e Relojoaria também têm de ser vistas à lupa.
Oficialmente, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) apontam 2010 como um ano recorde, com uma duplicação das exportações. Mas a realidade é diferente, já que estes resultados são conseguidos com métodos poucos convencionais usados por alguns comerciantes. Importar peças da Índia ou da China e vendê-las como portuguesas, a preço mais alto, é um estratagema cada vez mais usado e que ‘inflaciona’ o valor das exportações.

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Primeiro, as aparências. Em 2010, as exportações de pedras e metais preciosos registaram um crescimento de 95,8%, atingindo cerca de 260 milhões de euros. As importações também subiram, mas apenas 30%, o que resulta numa melhoria da balança comercial. As exportações de relógios com metais preciosos também tiveram um comportamento positivo (ver infografia).

Poder-se-ia argumentar que a subida das exportações significaria apenas que, como as cotações do ouro e da prata nos mercados internacionais estão a subir, isso leva também à subida do valor das exportações, sem que tenha havido mudanças substanciais na quantidade vendida. Mas esse argumento cai por terra quando se olha para as cotações médias das matérias-primas mais usadas pela indústria. Entre 2009 e 2010, o preço médio do ouro aumentou 26% e o da prata subiu 37%, o que significa que houve, de facto, uma melhoria do saldo comercial.
Agora, a realidade. Os dados do INE, compilados pela Associação Empresarial de Portugal (AEP), apanham de surpresa todos agentes do mercado contactados pelo SOL, que não conseguem perceber a origem deste dinamismo comercial. É o caso de Assunção Silva, proprietária de uma empresa especializada em comércio de pedras lapidadas, no Porto: «A nível de pedras não me parece que tenha havido uma subida expressiva das exportações. Na fase de crise económica em que estamos, dificilmente existem sectores de destaque».
Jorge Leitão, dono da mais antiga ourivesaria em Portugal, a Leitão & Irmão, em Lisboa, também tem reticências. O estabelecimento está há 200 anos no mercado, já teve reis e rainhas como clientes, mas o seu proprietário não faz a mais pequena ideia de como as exportações podem estar a subir. «Não conheço ninguém que esteja a exportar mais, não acho que tal esteja a acontecer. Haverá algo nas estatísticas que não corresponde à verdade», diz.
Mais do que dinamismo na procura, está a haver criatividade na oferta. Segundo explica o responsável, Portugal está a tornar-se cada vez mais numa plataforma de importação e reexportação de peças em ouro e prata, de forma pouco transparente. «Parte significativa das exportações são peças marcadas em Portugal como sendo feitas cá, mas que têm origem em países como a China ou a Índia, cuja mão-de-obra é mais barata», refere.

Produção em queda
A acusação do empresário é secundada por uma das associações do sector. O secretário-geral da Associação Portuguesa da Indústria da Ourivesaria (APIO), João Carlos Brito, garante que há operadores do mercado a forjar a origem das peças. Ou seja, retiram a marca de fabrico noutro país e põem o selo de Portugal, antes de passarem pelo Departamento de Contrastarias da Casa da Moeda, que certifica as peças produzidas aqui. Desta forma, não só conseguem custos mais baixos – as jóias orientais chegam a um preço mais baixo – como podem depois ‘esticar’ os preços de venda, sobretudo para o espaço europeu. É isto que explica que as exportações estejam a subir, ainda que a produção em Portugal tenha caído de 170 milhões de euros, em 2007, para 77 milhões no ano passado.

Na realidade, o sector vive cada vez com mais dificuldades. Jorge Leitão lembra que a recessão está a provocar o encerramento de muitos estabele cimentos do sector, devido à «retracção nas compras». Os consumidores com mais rendimentos continuam com poder aquisitivo, mas as joalharias não funcionam apenas com o segmento de luxo. Produtos como brincos, colares, anéis, canetas ou relógios eram também muito requisitadas para ofertas de consumidores menos endinheirados em ocasiões especiais, e a procura diminuiu. «Sempre tivemos gama adequada a todo o tipo de clientes – temos peças de 50 mil euros e outras de 15. Há sempre compras de noivado, de presentes, mas sente-se a quebra». Paralelamente, o segmento empresarial – empresas que compram peças em ouro, como canetas ou salvas para ofertas corporate – também está em nítida contenção.


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