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Uma das funções dos intestinos consiste na absorção dos nutrientes essenciais para o organismo. Mas existe uma síndrome rara que leva à falência intestinal e que pode mesmo ser fatal. Falamos da síndrome do intestino curto. Sabe do que se trata?
No caso de sofrer desta síndrome, “o doente vai emagrecer e desnutrir até à morte, é literalmente ‘morrer de fome’", alerta o gastrenterologista Jorge Fonseca em entrevista ao Lifestyle ao Minuto no âmbito da rubrica O Médico Explica.
O especialista do Hospital Garcia de Orta e também professor da Egas Moniz School of Health and Science deu a conhecer esta síndrome rara, os sinais de alerta, possíveis tratamentos e sintomas de risco.
“Poderá haver doentes que desconhecem que sofrem de síndrome do intestino curto e de falência intestinal crónica, mas sentem-se a emagrecer e desnutrir e apercebem-se da situação.”
Como podemos definir a síndrome do intestino curto?
A síndrome do intestino curto é uma situação clínica em que o intestino foi operado, uma grande parte foi retirada e o intestino restante é incapaz de absorver todos os nutrientes e toda a água que é necessária para manter a saúde e a vida. Esta incapacidade é chamada falência intestinal e, de facto, é a síndrome do intestino curto que causa a maioria das falências intestinais crónicas.
Quais são as principais causas?
A síndrome do intestino curto resulta de ressecção cirúrgica de grande parte do intestino. Isto pode ocorrer por uma doença aguda que afeta grande parte do intestino que tem de ser retirado de uma única vez para salvar a vida do doente, mas também pode ocorrer porque o doente tem de ser operado múltiplas vezes, retirando de cada vez uma parte do comprimento intestinal. Nos adultos, as doenças subjacentes mais frequentes são a Doença de Crohn, a trombose/isquemia intestinal e as doenças oncológicas. No entanto, qualquer procedimento cirúrgico intra-abdominal pode complicar-se e levar à excisão de uma grande extensão intestinal.
Existem fatores de risco?
Esta síndrome pode ocorrer em qualquer pessoa. Contudo, doentes com neoplasias abdominais têm maior risco de ressecção intestinal múltipla e os diabéticos têm maior risco de isquemia extensa que necessite excisão alargada do tubo digestivo.
Quem está mais suscetível: homens, mulheres? Ou até crianças e mais idosos?
Homens e mulheres têm riscos semelhantes e todas as idades podem ser atingidas. Temos crianças que desenvolvem esta situação à nascença e doentes com mais de 100 anos. Os recém-nascidos podem sofrer de necrose intestinal, nos adultos jovens a Doença de Crohn é uma causa comum e nos mais idosos a isquemia/trombose e as neoplasias são dominantes.
Existem alguns sinais de alerta a que é preciso estar atento?
Quando um cirurgião tem de ressecar uma extensão intestinal grande, pode suspeitar de imediato da possibilidade de se desenvolver uma síndrome do intestino curto, sobretudo se a extensão restante for inferior a 200 cm. Nesse caso, deve referenciar o doente a uma equipa hospitalar de Falência Intestinal de modo a monitorizar o doente e iniciar o tratamento se necessário.
É vital referenciar o doente a uma equipa hospitalar de falência intestinalO que pode acontecer se não for tratada?
Se a síndrome do intestino curto ou qualquer outra forma de falência intestinal crónica não for tratada, o doente vai emagrecer e desnutrir até à morte. É literalmente 'morrer de fome'. É por isso que é vital referenciar o doente a uma equipa hospitalar de falência intestinal.
Pode trazer complicações tanto a quem sofre, como também às famílias que convivem com os pacientes?
Ter um familiar com síndrome do intestino curto gera uma responsabilidade para toda a família próxima, pois todos tendem a ser necessários para ajudar a cuidar do doente. De facto, os cuidadores são, habitualmente, os pais no caso das crianças, os cônjuges e os filhos. Um doente assim exige a todos esforço e partilha de cuidados, preocupações e, muitas vezes, sofrimento.
Pode ter cura?
Em alguns casos, o intestino foi separado, mas não retirado, continua dentro do abdómen e pode ser reconstruído, restaurando a continuidade. Mas nos casos em que não é possível a reconstrução, há tratamentos medicamentosos ou cirúrgicos que permitem uma vida longa e frutuosa.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico, quando, após uma cirurgia com excisão intestinal extensa, se constata que não é possível uma nutrição adequada por via oral e que o doente continua a emagrecer e a desnutrir com uma alimentação otimizada.
E o tratamento, em que consiste?
O tratamento de base consiste na administração dos nutrientes diretamente na veia, o que se chama Nutrição Parentérica, associada à otimização da alimentação oral. Vários medicamentos podem ser úteis. Atualmente, há um medicamento semelhante a uma hormona natural, que estimula o crescimento do intestino, potenciando a reabilitação. Nalguns casos, podem ser usadas intervenções cirúrgicas para ajudar a reabilitação intestinal.
Existem muitas pessoas que sofrem com esta síndrome e não têm noção?
Poderá haver doentes que desconhecem que sofrem de síndrome do intestino curto e de Falência Intestinal Crónica, mas sentem-se a emagrecer e desnutrir e apercebem-se da situação. Esta condição não passa desapercebida.
Ainda é uma condição pouco conhecida?
Infelizmente, ainda é insuficientemente conhecida, não só na sociedade, mas também entre os médicos e outros profissionais de saúde. É classificada como uma doença rara, mas na maioria das doenças raras os doentes sobrevivem com grandes deficiências e são visíveis na sociedade. Na síndrome do intestino curto e de falência intestinal crónica, os doentes morrem se não forem tratados e a sociedade não se apercebe da tragédia que lhe passa ao lado. Não têm a visibilidade de outras doenças raras.
Qual a importância de um diagnóstico precoce?
O diagnóstico é clínico e é muito importante que seja precoce, antes que se instale a degradação nutricional, que é muito mais difícil de recuperar do que de prevenir.
O que pode ser feito para prevenir? A alimentação é um ponto-chave?
É muito difícil prevenir a síndrome do intestino curto, porque resulta de cirurgias muito complicadas, embora haja algumas estratégias para minimizar a extensão das recessões intestinais. Identificar os doentes que ficaram com o intestino muito reduzido e iniciar precocemente a Nutrição Parentérica é a chave para tratar estes doentes.
Qual a importância de dar a conhecer mais sobre esta condição?
É fundamental. Divulgar esta condição, alertar os médicos, os profissionais de saúde e a sociedade, orientar precocemente os doentes para as mais experientes equipas hospitalares de falência intestinal crónica e iniciar atempadamente o tratamento são as estratégias necessárias para salvar a vida destes doentes.
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