- Entrou
- Out 5, 2021
- Mensagens
- 58,087
- Gostos Recebidos
- 1,661
Venda de spray de pimenta para mulheres em farmácias no Rio divide opiniões
Nova lei é vista com bons olhos por parte da população, mas especialistas apontam para alguns riscos
Rio - A aprovação da lei que autoriza a venda de spray de pimenta em farmácias do Rio de Janeiro, assinada pelo governador Cláudio Castro, provoca repercussão entre especialistas e mulheres que vivem diariamente a realidade da violência urbana. Embora a legislação tenha sido comemorada por parte da população como uma alternativa de defesa pessoal, especialistas apontam riscos importantes e mulheres entrevistadas pelo O DIA revelam opiniões divididas.
Sílvia Ramos, especialista em segurança pública, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), considera a medida 'problemática' em vários aspectos. Segundo ela, o spray de pimenta, apesar de classificado como arma não letal, é um instrumento de uso restrito e não deveria ser comercializado em farmácias.
"O spray de pimenta é um armamento não letal. Permitir sua venda em farmácias é algo muito estranho e que claramente interessa às produtoras de armas. Outro ponto é a dificuldade de uso, muitas mulheres podem se sentir protegidas e tentar utilizá-lo, mas isso pode gerar ainda mais violência por parte do agressor. Isso é algo que poderá ocorrer com uma alarmante frequência", disse.
A especialista também critica a mensagem transmitida pelo Estado: "O governo praticamente diz que a mulher precisa 'se virar sozinha', ir à farmácia e comprar um spray para se proteger. Mas não é isso que defendemos. Cabe ao Estado investir em políticas públicas não só de proteção, mas de prevenção, programas que reduzam a violência de gênero, estupros, assédio, violência doméstica, familiar e entre parceiros e ex-parceiros. Esses três aspectos problemáticos precisam ser levados em conta".
A psicóloga, doutora em psicologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Daiane Bocard, comenta sobre o uso da ferramenta.
"Em momentos de ameaça, o nosso corpo ativa o sistema de luta ou fuga, que nos prepara para reagir à situação estressante. As respostas podem ser lutar, correr ou até congelar. Por isso, precisamos considerar se a mulher terá condições de usar o spray de forma eficaz. Se não souber manusear corretamente, ele pode até voltar contra ela. Antes de comprar e carregar o produto, é fundamental ter autoconhecimento e consciência sobre como você reage nessas situações, se você sabe manusear e também se você que teria coragem de borrifar se fosse necessário?", indaga.
Opiniões nas ruas também refletem divergências
Entre as mulheres ouvidas pelo DIA, a sensação é de que a medida pode ajudar, mas com ressalvas significativas.
A estudante de pedagogia Cíntia Oliveira, de 23 anos, moradora de Jacarepaguá, diz que não pretende comprar: "Pode ser uma forma a mais de segurança para a mulher, mas ao mesmo tempo acho um pouco problemático. Muitas vão se sentir mais seguras, claro, mas eu não usaria. Em um momento de perigo, talvez nem desse tempo de pegar. E além disso eu não usaria um spray de pimenta em alguém, não gosto de violência".
Já a atendente de loja Ariele Gomes, 25 anos, moradora de Curicica, na Zona Sudoeste, lembra de casos trágicos envolvendo reações a assaltos. "As pessoas têm que dosar o uso do spray. Existem momentos que devem ser usados e outros que não. Vi no jornal o caso de uma menina que usou durante um assalto, o bandido deu um tiro e ela morreu, na frente do namorado e do pai. Eu compraria, mas só usaria se tivesse certeza de que o assaltante não está armado", diz.
Sandra Pereira, 65 anos, aposentada, também moradora de Jacarepaguá, vê a proposta com cautela: "Vejo o spray como uma ferramenta adicional diante do aumento do número de assaltos, mas tenho dúvidas sobre o uso real no cotidiano. Eu me pergunto como esse novo recurso será incorporado ao comportamento diário das mulheres".
A cabeleireira Andressa Branquinho, 36 anos, moradora da Taquara, na Zona Sudoeste, acha a medida positiva como uma camada de proteção, especialmente para mulheres que vivem rotinas de exposição constante. "Acho bem interessante para a segurança da mulher, que fica exposta todos os dias no transporte público, nas ruas e até nas baladas, quando às vezes mesmo dizendo não a mulher não consegue impedir que um homem toque em seu corpo. Eu trabalho com mulheres e as reclamações só aumentam. Acho válida a venda do spray", afirma.
O que diz a nova lei?
De acordo com o texto, o spray com concentração máxima de 20% é considerado não letal. O projeto determina que apenas mulheres maiores de idade poderão comprar o spray de pimenta, mediante apresentação do documento de identidade, sendo limitadas duas unidades por mês. Para os adolescentes com mais de 16 anos, só será possível o uso do spray com autorização dos responsáveis.
O texto prevê ainda que o Estado poderá fornecer o spray gratuitamente a mulheres vítimas de violência doméstica que possuam medida protetiva, com os custos sendo cobrados do agressor. Já os recipientes com mais de 50 ml continuarão de uso exclusivo das forças de segurança.
O Dia
Nova lei é vista com bons olhos por parte da população, mas especialistas apontam para alguns riscos
Rio - A aprovação da lei que autoriza a venda de spray de pimenta em farmácias do Rio de Janeiro, assinada pelo governador Cláudio Castro, provoca repercussão entre especialistas e mulheres que vivem diariamente a realidade da violência urbana. Embora a legislação tenha sido comemorada por parte da população como uma alternativa de defesa pessoal, especialistas apontam riscos importantes e mulheres entrevistadas pelo O DIA revelam opiniões divididas.
Sílvia Ramos, especialista em segurança pública, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), considera a medida 'problemática' em vários aspectos. Segundo ela, o spray de pimenta, apesar de classificado como arma não letal, é um instrumento de uso restrito e não deveria ser comercializado em farmácias.
"O spray de pimenta é um armamento não letal. Permitir sua venda em farmácias é algo muito estranho e que claramente interessa às produtoras de armas. Outro ponto é a dificuldade de uso, muitas mulheres podem se sentir protegidas e tentar utilizá-lo, mas isso pode gerar ainda mais violência por parte do agressor. Isso é algo que poderá ocorrer com uma alarmante frequência", disse.
A especialista também critica a mensagem transmitida pelo Estado: "O governo praticamente diz que a mulher precisa 'se virar sozinha', ir à farmácia e comprar um spray para se proteger. Mas não é isso que defendemos. Cabe ao Estado investir em políticas públicas não só de proteção, mas de prevenção, programas que reduzam a violência de gênero, estupros, assédio, violência doméstica, familiar e entre parceiros e ex-parceiros. Esses três aspectos problemáticos precisam ser levados em conta".
A psicóloga, doutora em psicologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Daiane Bocard, comenta sobre o uso da ferramenta.
"Em momentos de ameaça, o nosso corpo ativa o sistema de luta ou fuga, que nos prepara para reagir à situação estressante. As respostas podem ser lutar, correr ou até congelar. Por isso, precisamos considerar se a mulher terá condições de usar o spray de forma eficaz. Se não souber manusear corretamente, ele pode até voltar contra ela. Antes de comprar e carregar o produto, é fundamental ter autoconhecimento e consciência sobre como você reage nessas situações, se você sabe manusear e também se você que teria coragem de borrifar se fosse necessário?", indaga.
Opiniões nas ruas também refletem divergências
Entre as mulheres ouvidas pelo DIA, a sensação é de que a medida pode ajudar, mas com ressalvas significativas.
A estudante de pedagogia Cíntia Oliveira, de 23 anos, moradora de Jacarepaguá, diz que não pretende comprar: "Pode ser uma forma a mais de segurança para a mulher, mas ao mesmo tempo acho um pouco problemático. Muitas vão se sentir mais seguras, claro, mas eu não usaria. Em um momento de perigo, talvez nem desse tempo de pegar. E além disso eu não usaria um spray de pimenta em alguém, não gosto de violência".
Já a atendente de loja Ariele Gomes, 25 anos, moradora de Curicica, na Zona Sudoeste, lembra de casos trágicos envolvendo reações a assaltos. "As pessoas têm que dosar o uso do spray. Existem momentos que devem ser usados e outros que não. Vi no jornal o caso de uma menina que usou durante um assalto, o bandido deu um tiro e ela morreu, na frente do namorado e do pai. Eu compraria, mas só usaria se tivesse certeza de que o assaltante não está armado", diz.
Sandra Pereira, 65 anos, aposentada, também moradora de Jacarepaguá, vê a proposta com cautela: "Vejo o spray como uma ferramenta adicional diante do aumento do número de assaltos, mas tenho dúvidas sobre o uso real no cotidiano. Eu me pergunto como esse novo recurso será incorporado ao comportamento diário das mulheres".
A cabeleireira Andressa Branquinho, 36 anos, moradora da Taquara, na Zona Sudoeste, acha a medida positiva como uma camada de proteção, especialmente para mulheres que vivem rotinas de exposição constante. "Acho bem interessante para a segurança da mulher, que fica exposta todos os dias no transporte público, nas ruas e até nas baladas, quando às vezes mesmo dizendo não a mulher não consegue impedir que um homem toque em seu corpo. Eu trabalho com mulheres e as reclamações só aumentam. Acho válida a venda do spray", afirma.
O que diz a nova lei?
De acordo com o texto, o spray com concentração máxima de 20% é considerado não letal. O projeto determina que apenas mulheres maiores de idade poderão comprar o spray de pimenta, mediante apresentação do documento de identidade, sendo limitadas duas unidades por mês. Para os adolescentes com mais de 16 anos, só será possível o uso do spray com autorização dos responsáveis.
O texto prevê ainda que o Estado poderá fornecer o spray gratuitamente a mulheres vítimas de violência doméstica que possuam medida protetiva, com os custos sendo cobrados do agressor. Já os recipientes com mais de 50 ml continuarão de uso exclusivo das forças de segurança.
O Dia
